sábado, junho 09, 2007

Nas madrugadas

Confesso. Confesso a minha promiscuidade compulsiva. Não passo uma única noite sozinho no quarto. Na minha cama tenho sempre companhia. Às vezes, num desejo insaciável, até me entrego a mais de um. E passamos horas rolando na cama e só depois de muito tarde viro e durmo. Acordo cedo, tonto de sono e querendo mais. Torço para o dia passar depressa.

Não tenho preconceitos. Pode ser novo, velho, homem ou mulher. Mas, admito, tenho meus preferidos. José e Gabriel são casos sérios. Me fazem perder noites inteiras de sono. Quando começo, não consigo mais parar e vejo a hora passar e quanto mais me entrego, mais desejo me entregar.

Mas eu sentia falta de uma presença feminina na minha cama. Até que conheci a Lygia. Meu Deus, a Lygia, minha mais recente paixão. Noite e noites embriagado com Lygia e suas palavras sacanas, sua ironia sutil, suas várias personalidades e sua maneira simples de falar de amor. "Não se arranca o bem-querer do coração", palavras dela. Lygia, quem mais seria capaz de dizer algo assim tão óbvio e, por isso mesmo, tão indizível, invisível, impensável?

Inicio mais um capítulo. As páginas se sucedem como vagões de um comboio interminável que não canso de ver passar. Os ponteiros saltam em quartos de hora e não sou capaz de fechar o livro. O sono fica cada vez mais distante e a manhã, cada vez mais próxima. Vem, minha Lygia, que parei para escrever essas bobagens e já estou morrendo de saudade.

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segunda-feira, maio 28, 2007

Trifosfato de Adenosina

O acontecimento mais marcante do dia foi a lembrança dessa substância de nome imponente. "Acho que vou até dormir quando chegar em casa", comentei. "Você está precisando de uma cama".

Nada. O que preciso mesmo é de trifosfato de adenosina. Cama eu já tenho, atrás de mim neste momento, mesmo sentado. Aliás, é muito difícil achar uma posição na cadeira quando se tem uma cama colada nas costas.

As últimas horas passaram como sonhos. Tudo na sala é envolto em névoa. A voz do professor faz eco. A minha não faz o menor sentido. Não sei porque resolvo falar e gastar minhas valiosas reservas de energia movimentando os músculos da face, fazendo esse esforço intenso de obrigar o ar a passar pelas cordas vocais. Articular a fala, que hábito desnecessário. Que vontade de grunhir.

E falo justamente sobre sonhos, num exercício de metalinguagem. E falo, e sonho, e coço, e rabisco o papel e olho ao redor e essa gente séria. Chega, cansei, está na hora de levar a cama de volta pra casa.

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